Quinta-feira, Outubro 08, 2009

O Conceito Zero

Um livro que impressionou muito, e no bom sentido.

O Conceito Zero, lançado em 2006, é o primeiro romance de um brasileiro aposentado da Receita Federal, A. J. Barros, e traz uma trama digna de um grande filme de ação, com várias reviravoltas e narrativas sem tomar fôlego entre os parágrafos.

O tema: internacionalização da Amazônia legal brasileira, através de uma conspiração de homens poderosos e influentes, tanto externos quanto internos ao país. Tudo bem que certas situações são um tanto mirabolantes, como a existência de uma seita de monges templários em meio à floresta amazônica, porém a idéia geral é boa. Com dados reais sobre a situação da região Norte, Barros consegue empolgar o leitor por uma indagação simples e forte: será que estamos perdendo a Amazônia aos poucos por descaso dos órgãos brasileiros, através de invasões de milhares de organizações não-governamentais que pedem acesso à Amazônia com justificativas de dar assistência às comunidades locais e realizar pesquisas de âmbito ambiental?

Esta pergunta não é original — muitas pessoas já se questionaram a mesma coisa, com maior ou menor atenção à mensagem implícita nessas palavras. A. J. Barros, porém, decidiu arregaçar as mangas e escrever esta obra, através de muita pesquisa e com anos de experiência junto à Receita Federal, além de uma boa dose de paixão pelos recantos do Norte do Brasil. Acho que o esforço valeu muito a pena.

Estranho é que uma estória tão bem escrita, recheada de suspense, espionagem — a ABIN (Agência Brasileira de Informações), a CIA e o FBI estado-unidenses aparecem envolvidos no enredo — e até mesmo um pouco de romance, para criar uma certa relação mais íntima com alguns personagens, não tenha sido cogitada para ser cinematografada pelo novo cinema brasileiro, tão escasso de filmes do gênero. Em minha opinião, daria um grande faturamento em bilheterias de todo o país. Talvez seja o fato do nome de A. J. Barros ainda não ser muito conhecido, pois não foi muito fácil encontrar este livro à venda, o que poderia ser uma falha da editora na promoção da obra.

Um último detalhe, não menos interessante: as páginas são repletas de dados históricos e atuais a respeito de importantes pontos da região amazônica, como construções de fortes perdidos na floresta, fundações de cidades, estatísticas sociais, culturas locais — enfim, uma miscelânea para apreciadores deste tipo de literatura. Realmente é difícil parar de ler.

Para conhecer:

Título: O Conceito Zero

Autor: A. J. Barros

Editora: Geração Editorial

Número de páginas: 436

Domingo, Agosto 16, 2009

O Menino do Pijama Listrado

Um livro de certa forma estranho.

John Boyne é um escritor irlandês contemporâneo que, segundo consta no livro, escreveu esta narrativa de 186 páginas sobre um menino chamado Bruno, de nove anos de idade, em apenas dois dias e meio. Nunca havia ouvido falar nele até então, quando encontrei este volume à venda numa loja de conveniência em um posto de gasolina, durante minhas férias recentes. Um escritor de alguns livros, porém nenhum se comparando com este em questão de trama.

O enredo é simples e batido: Segunda Guerra Mundial e os nazistas. A narrativa é até mesmo similar ao pensamento de uma criança desta idade, embora seja em terceira pessoa, quando se percebe que Bruno, filho mais novo de um comandante do exército alemão, não consegue pronunciar certas palavras que lê e ouve, como quando pronuncia "Fúria" ao invés de "Führer" para se referir a Hitler (trocadilho que, em português, é curioso).

A família mora em Berlim, porém o próprio "Fúria" indica o pai de Bruno para trabalhar em um famoso campo de concentração muito longe de sua cidade. Bruno não gosta da idéia, pois sempre morou na mesma casa grande, onde gostava de brincar de explorador, descer pelo corrimão da escada, entre outras coisas que todo menino de sua idade adora fazer.

Bruno é uma criança que, para muitos leitores, pode parecer bastante mimada, e podem ter razão em pensar assim: um garoto que não tem noção de nada do que se passa ao redor, a não ser satisfazer suas necessidades imediatas de boa vida, já que nunca passou por dificuldade alguma em seus nove anos de vida. Até que vai para uma nova casa muito distante de sua terra natal, devido ao trabalho que foi incubido ao pai realizar. É então que conhece o menino de pijama listrado.

Shmuel é um garoto polonês da mesma idade de Bruno, porém com uma vivência muito diferente de seu novo amiguinho alemão. O que mostra que o amadurecimento de Shmuel é extremamente precoce em relação ao outro. É como se diz por aí: o sofrimento sempre traz experiências, nem sempre boas, entretanto. Judeu feito prisioneiro dos nazistas, é terrivelmente magro e triste, contrastando com a aparência do pequeno alemão, que não consegue entender, ou ao menos suspeitar, o porquê dele ser daquele jeito.

Foi aí que comecei a pensar que o livro tinha algo de errado.

A família de Bruno passa mais de um ano vivendo ao lado do campo de concentração, e durante todo esse período o menino observa cenas e comportamentos incomuns das pessoas ao seu redor, com as quais nunca esteve acostumado, e parece não conseguir se dar conta do que acontece, pois não demonstra amadurecer quase nada com uma situação tão estranha como aquela, onde pessoas são encarceradas, humilhadas e torturadas diariamente. Está certo, é apenas um rapazinho de nove anos, que sempre teve o carinho e atenção de seus pais, nunca se preocupando com nada além de suas brincadeiras. Porém acho insólito, mesmo para uma criança tão pequena, viver alienada de algo tão brutal que ocorre nos fundos de sua casa (ele consegue ver o campo de concentração da janela de seu quarto). Mesmo conversando muitas vezes com Shmuel, ele não se apercebe de coisa alguma, até mesmo prefere tentar ignorar certos fatos que aparecem debaixo de seu nariz.

Talvez seja apenas minha opinião isolada da de outros leitores, contudo não consigo concordar com a descrição de uma personagem que, mostrando-se tão esperta quanto Bruno é, se deixe enganar pelo que considero uma forma de comodismo crônico. Mesmo assim, fica aqui minha sugestão de leitura para quem gosta do tema. Sei que foi lançado um filme baseado nesta obra, mas não tenho certeza de que terei muito interesse em assisti-lo. Pelo menos por enquanto.

Para conhecer:

Título: O Menino do Pijama Listrado

Autor: John Boyne

Editora: Companhia das Letras

Número de páginas: 186

Sexta-feira, Julho 17, 2009

Contadores de histórias

História pra contar, emprestada de uma roda de amigos na casa de alguém em Rio Claro, São Paulo, há muitos anos (memórias...).

 

O Montanha (um cara raquítico, cara de nerd, mas com uma lábia incrível pra contar histórias) relembrando uma situação desesperada:

- E daí o pessoal se arrumou e resolveu ir ao cinema assistir ao tal filme, mas o João [suponhamos que seja esse o nome, faz muito tempo mesmo] não tava muito afim, mesmo assim foi acompanhar os amigos. Compraram os ingressos, entraram na sala de exibição, procuraram umas cadeiras com boa visão, etc. As luzes se apagam, o filme vai começar. Primeiros minutos na tela, de repente todo mundo se assusta:

- AAAAAAAAHHHHHHH!!!!!! AAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!! AAAAA-AAAAHHHHHHH!!!!!!

- Outras pessoas começam a gritar, desesperadas, ninguém sabe o que tá acontencendo, e aquele grito desumano continua muito, muito alto. Quem era? O João.

- O João? Mas por quê?

- Foi o que todo mundo queria saber. Ligaram as luzes da sala, algumas pessoas estavam com muito medo, procurando saber de onde vinha o grito, e todo mundo vê o João, com as mãos na cabeça, olhos fechados, gritando como se fosse morrer, os amigos dele levando o sujeito pra fora do cinema. E ele não parava de gritar daquele jeito. A galera começa a perguntar, "Mas o que foi que houve?" "João, você tá passando mal?" "Fala com a gente, cara!" Meu Deus, o que é isso, João?!?", etc, etc.

- E daí?

- Daí que a gritaria continuou até eles estarem na rua de novo. De repente...

- Ah! Pronto. Passou, passou. - disse o João, ajeitando os cabelos e caminhando normalmente, como se estivesse passeando há horas pela calçada.

Todos na roda se olham, não acreditando no Montanha.

- E aí? E os amigos?

- Todo mundo olhando com cara de babaca pra ele.

- Tudo porque ele não queria assistir ao filme?!?!?

- É.

Vai entender as pessoas.

Sábado, Julho 11, 2009

C8H10N402 - CAFFEINE

Banda de uns amigos. Tudo bem, tudo bem, eu já fiz parte da banda, que na época ainda era singelamente (e não-oficialmente) batizada de Deads.

C8H10N4O2 (ou Caffeine, para os íntimos), Faith no More Cover de Campinas/SP:

 

Mais uma, para relaxar:

Porque rock tem que ser de verdade.

Nova Zelândia e o Direito da Sesta

Ela disse não é lindo?, mas ele já estava fechando os olhos outra vez. Ela chegou perto do sofá, jogou uma almofada em sua cara e se virou de novo apontando para a tevê, com um sorriso, não é lindo? Ele olhou para a tela onde aparecia um comercial mostrando uma casa num campo aberto, com uma vista maravilhosa de montanhas e vales, um céu límpido e tão azul que chegava a doer na vista, então ele resmungou que sim, era lindo.

E onde você acha que deve ser isso?, ela quis saber. Pelo jeito, ele não ia poder terminar a sesta que estava pretendendo desde antes da hora do almoço, e então chutou, sei lá, talvez Nova Zelândia, dizem que na Nova Zelândia a natureza é maravilhosa, e virou o rosto para o lado, tentando lhe mostrar que desejava um pouco de sossego e de exercer o seu direito de roncar no sofá que ainda estava com algumas prestações por pagar na loja.

Nova Zelândia, Nova Zelândia, ela ficou repetindo, enquanto ele se virava novamente para encará-la, agora um pouco mais acordado e preocupado. Conhecia aquele tom de voz. Não, nem pense nisso, mulher, de jeito nenhum. Ah, mas temos um dinheiro guardado, acho que dá pra irmos, meu bem. Você está louca? Onde acha que temos dinheiro, se não sobra nada no fim do mês? E afinal de contas, como vamos prum país se não sabemos falar o idioma daquele povo? O que eles falam lá? Inglês. Então não deve ser tão difícil, tem tanta gente que vai pros Estados Unidos e não sabe falar nem Ai lóvi iú. Você sabe quanto tempo demoraríamos pra chegar lá? É do outro lado do mundo, do outro lado! Fora que as coisas lá devem ser bem caras, e só você para querer viajar sem fazer todos os planos de gastos, só me faltava essa. E tem mais, nem sabemos se essas imagens são mesmo da Nova Zelândia, o que eu disse foi um chute.

E o que eu tenho guardado durante todos esses meses? Ele se sentou na ponta do sofá e encarou-a com os olhos semi-cerrados, a boca quase não abrindo, você disse durante todos esses meses? Sim. E eu me matando pra pagar as contas dessa casa, enquanto você guarda um dinheiro e não me avisa! Sim, mas é que eu, mas ele já não queria mais escutar, como você faz isso comigo, mulher? Bom, eu não pensei que você ficasse assim por causa de uma coisa tão boba. Boba, você diz, deve ser uma coisa muito boba, mesmo, eu ficar me preocupando com o nosso lar enquanto você faz planos para ir a Nova Zelândia. Mas você mesmo acabou de dizer que, mas ele não quis escutar de novo, se quiser ir, pode ir, enquanto eu fico com todo o ônus, pode ir gastar o seu dinheiro enquanto eu me mato para pagar esse sofá.

Deitou-se e virou a cara definitivamente para o encosto do sofá, os braços cruzados no peito, dando por encerrada a conversa. Ela ficou ali de pé, olhou para a tevê, mas agora era outro comercial passando, algo sobre amaciante de roupa. Como ele pode comparar um sofá com a Nova Zelândia?, ela pensou. Como ela pode me privar da minha sesta, num sofá tão bom como esse?, ele pensou antes de se afundar no sono.

Quinta-feira, Julho 09, 2009

É Talvez o Último Dia da Minha vida

É talvez o último dia da minha vida.

Saudei o sol, levantando a mão direita,

Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,

Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.

(Alberto Caeiro)

Sexta-feira, Julho 03, 2009

Quase-poema

 

E tudo porque não sei o que -

Mas é como se fosse algo muito -

Apesar de tudo, fico -

Pois não tenho nada que -

Ao anoitecer as lágrimas são -

E nunca, nunca mais -

Por falta de cuidado, penso que -

E na alegria derradeira, o céu -

Quando as palavras se vão, resta -

No ar, a estrada -

Domingo, Agosto 17, 2008

Tudo é velho

Tudo é velho como a poeira que se acumula nos cantos e sob meus pés. Nada como uma garrafa de conhaque para espantar maus espíritos e minha solidão: ao menos um copo cheio. Nada de putas e notícias de guerra pela televisão, nada de gritos, nada de corações duros, apenas um piano no fundo da mente, uma voz rasgada e suave e uma pitada de esperança.

Tudo é velho como é velho o modo de ver o mundo, como é velho o pensamento de lutas e desperdícios. Meu álcool é minha luz nesta noite de monstros rastejantes e gigantes de pedra a esmagar sonhos. Contra tudo possuo uma faca, menos que isso, um alfinete, tenho nada.

Tudo é velho como este cigarro em meu bolso roto, este cigarro que vem com teu nome, minha querida. Tudo é velho como eu, e ainda há tanto pela frente. Ficar bêbado sobre a lua, como o outro velho Tom*, e ver no que dá. Mais um copo cheio, querida, sem gelo.

* Referência a Drunk on The Moon, de Tom Waits.

Domingo, Dezembro 16, 2007

O fogo e a memória

Um dia escreverei sobre o fogo e a memória. Uma teimosia da minha mente, que volta e meia me prega a mesma peça. O fogo eu não sei bem qual seria, nem a memória, mas no fundo isso não importa: palavras jogadas ao vento, como sempre. Os livros me olham curiosos dali do canto, encaixotados, empilhados, abertos, virgens, todos eles. Querem uma resposta do fogo e a da memória e eu não sei o que lhes dizer, porque não sei o que dizer a mim mesmo. Palavras.
O mundo acontece, alguém já disse. Eu apenas continuo.
Um dia pegarei Sêneca, o grego sobre a mesa, e talvez venha a descobrir com ele que a brevidade da vida é certa, e talvez lá eu encontre o fogo e a memória que me perseguem. A vida continua, nada acontece. Enquanto isso, nada de novo. De novo. Nada.

Segunda-feira, Setembro 24, 2007

Orai por nós, mãe

A Salomé Gomes Sares (in memoriam).
As palavras são poucas; o sentimento, incomensurável.


Ergue tua fronte cálida, teus olhos mansos para o mundo. Abraça-me. Abraça-me enquanto te retenho neste instante, em todos estes segundos que me visitas com teus olhos de paz, a fronte piedosa. Posso te chamar de mãe e sei que me acolhes como a um filho, e fico grato. E estás longe, mãe, mas te sinto por aqui. Ainda te sinto me pondo para dormir, servindo leite com biscoitos, beijando-me a testa suada após as brincadeiras no quintal. E sempre o modo forte e terno com que aconselhas. E escrevo para ti somente agora, agora que sei que não mais te abraçarei, não mais te afagarei os cabelos, não verei o sorriso de menina na fronte da mulher de batalhas e glórias. Posso derramar lágrimas, mamãe, mas não as quero comigo. Quero tua paz, teu jeito simples de ensinar e perdoar, teu exemplo. Ergue-te para o mundo, ele agora é todo teu. Orai por nós, mãe. Abençoado sempre seja teu bom e humilde coração. Amém.

Sábado, Setembro 15, 2007

Soneto XCI

Soneto de Pablo Neruda (Cem Sonetos de Amor).

A idade nos cobre como a garoa,
interminável e árido é o tempo,
uma pluma de sal toca teu rosto,
uma goteira corroeu minha roupa:

o tempo não distingue entre minhas mãos
ou um vôo de laranjas nas tuas:
fere com neve ou enxadão a vida:
a vida tua que é a vida minha.

A vida minha que te dei se enche
de anos, como o volume de um cacho.
Regressarão as uvas à terra.

E ainda lá embaixo o tempo segue sendo,
esperando, chovendo sobre o pó,
ávido de apagar até a ausência.

Quinta-feira, Setembro 13, 2007

Livros: roubos, morte, história e vida


São os humanos que sobram.

Os sobreviventes.

É para eles que não suporto olhar, embora ainda falhe em muitas ocasiões. Procuro deliberadamente as cores para tirá-los da cabeça, mas, vez por outra, sou testemunha dos que ficam para trás, desintegrando-se no quebra-cabeça do reconhecimento, do desespero e da surpresa. Eles têm corações vazados. Têm pulmões esgotados.

O que, por sua vez, me traz ao assunto de que lhe estou falando esta noite, ou esta manhã, ou seja lá quais forem a hora e a cor. É a história de um desses sobreviventes perpétuos - uma especialista em ser deixada para trás.

É só uma pequena história, na verdade, sobre, entre outras coisas:


  • Uma menina
  • Algumas palavras
  • Um acordeonista
  • Uns alemães fanáticos
  • Um lutador judeu
  • E uma porção de roubos

Vi três vezes a menina que roubava livros.

(A Menina que Roubava Livros, Markus Zusak)

O que realmente me levou a comprar o livro foi o que estava escrito na contracapa, simples, direto e certeiro: "Quando a Morte conta uma história, você deve parar para ler". E eu parei, de vez em quando, entre o trabalho, o sono e algumas saídas noturnas.

A Morte, com certeza, já viu de tudo por aí, em todos os cantos. Mesmo assim, é capaz de se impressionar com certas coisas. E quando ela se torna narradora da história de de uma vida, tal vida pode se tornar épica, grandiosa, inigualável por ser cheia de todos os pequenos detalhes necessários para que fique gravada bem fundo em quem a lê. E só quem pode descrevê-la tão bem assim é quem a acompanhou até o último segundo, até a última expiração. Literalmente.

Liesel Meminger é uma garota que viveu, desde pequena, de imensas perdas. Com todos os temores e desejos do final da infância e começo da adolescência, seria uma garota comum, não fosse o fato de ter sido abandonada pela mãe, pouco antes de perder o irmão pequeno, morto durante uma viagem de trem, para ser criada por um casal pobre em meio à Segunda Guerra Mundial em Molching, uma cidade perto de Munique, Alemanha. Acaba encontrando um lar acolhedor junto aos Hubermann: Hans, um pai amável e protetor; Rosa, uma mãe que amava com xingamentos e reprimendas. Conheceu Rudy, um menino que se tornou rapidamente o seu melhor amigo, e com quem disputava partidas de futebol no meio da rua e roubava frutas. Houve também Max Vandenburg, um jovem judeu que se escondeu no porão de sua casa e que acabou construindo uma forte amizade com a menina.

O roubo dos livros começa com o Manual do Coveiro, que ela encontra em meio à neve durante o enterro do irmão caçula, numa tentativa desesperada de ter a memória do irmão sempre por perto. O que é uma ironia, visto que o livro remete ao trabalho da narradora. E falando em ironia, a própria Morte, ao longo das páginas, tenta minimizar o leitor da imagem sinistra que leva por todo lugar, procurando ser agradável, afável. "Só não me peça para ser simpática. Simpatia não tem nada a ver comigo".

Depois, com a ajuda de Hans nas madrugadas, Liesel começa a conhecer o mundo que se esconde por trás das palavras, e cada vez mais se mostra ávida por conhecê-lo. Às vezes, para a garota, o que importa é somente o prazer de adquirir um novo livro, como se pudesse, com isso, sobreviver a tudo aquilo pelo que passou. E se for roubado, melhor ainda.

Markus Zusak, escritor australiano, nos presenteia com um livro que nos faz pensar no que o ser humano é capaz, tanto para o bem quanto para o mal. Um livro que nos faz pensar no poder e na importância das palavras, quando tudo parece indicar caos e parcos momentos de alegria e esperanças. Um livro forte e sutil como a Morte, na condição de contadora de histórias. Um livro para ser admirado por todas as pessoas de todas as idades, pois contempla, entre tantos detalhes e rostos e cores e atos e lágrimas, a vida.

Para conhecer:

Título: A Menina que Roubava Livros

Autor: Markus Zusak

Editora: Intrínseca

Número de páginas: 500

Sábado, Setembro 08, 2007

Era Vulgaris - Queens of the Stone Age

Colaboração de Danilo A. M.

A verdade é que a primeira década do século XXI foi bastante decepcionante quando se trata de música. Pouquíssima coisa interessante foi produzida e a mídia ainda procura desesperadamente pelo novo Nevermind, aquele disco que sacuda as estruturas da música pop e que vire tudo de cabeça para baixo (de novo). Mas em meio à monótona cena atual, repleta de bandas EMO e bandas que tentam soar descoladas, ainda é possível ouvir uma pérola como o Era Vulgaris, novo álbum do Queens of the Stone Age.

O QOTSA apareceu para o grande público com o excelente Songs for the deaf em 2002. Disco que misturava stoner rock com temperos alternativos e, por que não?, "grunges". Após uma queda de qualidade no disco mais pop Lullabies to Paralize, de 2005, o grupo volta com um álbum tão ou mais forte do que o primeiro. Era Vulgaris traz todos os elementos do Songs..., adicionando ainda mais psicodelia e experimentalismo.


O álbum abre com a única faixa mais fraca, Turning up the Screw, e já dá lugar para uma empolgante sequência de 10 faixas onde pop, punk, metal, grunge e outros subgêneros do rock se misturam em perfeita harmonia. Sick Sick Sick é a faixa que abre essa sequência, uma pura adrenalina com seu criativo riff que gruda na cabeça e sua bateria nervosa. Depois dela, passeamos por diferentes momentos: experimentalismo (em I'm Designer e Misfit Love - música que traz uma incrível introdução, onde as guitarras se valem de inúmeros efeitos num crescendo que explode com o começo da parte cantada), beleza (em Into the Hollow, Suture Up Your Future, e principalmente na grudenta Make It Wit Chu), peso (na inquieta Battery Acid, em Run, Pig, Run com estilo do Faith No More), um momento tipicamente alternativo em 3's & 7's, e até uma marchinha de carnaval melancólica aparece em River in the Road.

Era Vulgaris é um álbum para ser escutado do início ao fim, várias vezes, para se atentar aos seus inúmeros detalhes e ser apreciado cada vez mais. É
um item indispensável na discografia de quem procura por boas novidades e já estava achando que o rock não poderia mais surpreender.

A esquecida arte de olhar as estrelas

Olhar as estrelas.

As pessoas não têm mais tempo de olhar para as estrelas. Todas preocupadas com roupas, carros, drinques, olhares provocantes, economias, jogos, estradas, nenhuma se lembra de levantar os olhos para o firmamento à noite. As luzes artificais ofuscam a visão, ninguém as enxerga. As guerras e as crises tomam conta dos noticiários, ninguém se lembra delas. Até mesmo as crianças não se interessam mais pelo que está acima de suas cabeças, pois os pais não se preocupam com o que está acima de suas próprias.

Parte de uma conversa:

"Eu acredito que na Idade Média as pessoas eram mais felizes."

"Mas como você pode dizer algo assim? Mais felizes, naquela época em que havia mais fome, mais doenças, mais guerras, e que era normal morrer com menos de quarenta anos?"

"Hoje não é diferente, talvez seja pior. Você pode morrer a qualquer momento por um atropelameto, por uma bala perdida, por vários meios. As guerras hoje em dia até matam mais do que antigamente. E o número de doenças aumentou absurdamente, assim como a gravidade delas. Só que naquele tempo você podia olhar para o céu à noite e admirar um pouco o mundo em que vivia. Naquele tempo você se sentava à mesa junto com sua família e contava histórias, aproveitava algumas horas com os seus. Naquele tempo você podia contar as estrelas, pois a vida era viver os detalhes dos dias e das noites. Você olha para o céu à noite?"

Silêncio.

"Você não gasta a maior parte do seu tempo pensando em como pagar suas contas, quando pagar suas contas, quando poderá comprar sua casa, seu carro, fazer o curso que você tanto quer, enfim pensando apenas em como viver amanhã?"

Silêncio.

"As pessoas parecem se esquecer das coisas simples da vida. Como olhar as estrelas no céu. Como fazer um jantar em volta da mesa com o pai, a mãe, os filhos, os irmãos, repartindo a comida e os casos do dia. Parecem se esquecer de viver hoje. Pensando no amanhã, sim, porém vivendo hoje também. O mundo anda muito mais acelerado do que há quinhentos anos ou mais, mas ainda somos humanos, do mesmo jeito que éramos naquela época cheia de fome, guerras e doenças. Se as crianças não olham mais as estrelas, isso é um mau sinal. E isso é culpa nossa."

Ah, as estrelas. Simplesmente olhar as estrelas. Como faz falta.

Quinta-feira, Agosto 30, 2007

Carmela

Carmela colheu estrelas partidas no céu, colou pedaço por pedaço, reformou a noite. Entoou uma canção surda, dançou ciranda e se esbaldou de chocolate. Chamou a chuva, sentiu as gotas, correu com a brisa, sangrou os pés, dormiu de abraço com a terra. Caminhou mil léguas, caminhou mais mil, cheirou, tocou, amou. Carmela acena das gravuras, do sonho dos homens, de todas as esquinas, de cada desejo. Carmela convida, dá as costas e é.

Segunda-feira, Agosto 27, 2007

Regras e exceções

A amiga reclamando de algo sobre os homens, na volta do almoço. Viro-me para ela e explico que é o seguinte, garota, entenda uma coisa: os homens, via de regra, são todos canalhas. Claro que, como toda boa regra que se preze, há exceções. Assim como, em contrapartida, todas as mulheres são víboras. A amiga me olha desconfiada, não responde. Completo: logicamente, por ser também uma regra, há mulheres que são boas exceções do que acabo de falar. Ela sorri levemente para mim. Concluo rapidamente: mas isso não significa que você seja uma das exceções, querida. Ela me desfere um bom tapa no braço. Canalha, diz, entre uma risada e uma reprovação. Eu não falei? Não falei?

Domingo, Julho 22, 2007

Dia desses

Dia desses a criança proferiu palavras sujas, e foi então que a infância acabou, uma porta se fechando com estrondo atrás de si.

Dia desses a mulher disse eu te amo e nunca mais conseguiu ser a mesma, pois as palavras fizeram-na refém de algo que não conhecia.

Dia desses o homem procurou uma saída e encontrou somente entradas, todas voltando ao início eternamente.

(Sem maçaneta na porta.)

Quarta-feira, Julho 18, 2007

Intervalo e heavy metal

Sem tempo e cabeça nessas semanas para escrever algo que preste por aqui. Triste isso. Mas pelo menos fiquem com a letra de uma música que, para mim, nos últimos tempos, tem me deixado desesperado, de tão boa que é.


He said he'd try just a little bit
He didn't want to end up like them
And now he blames the voices of a toothless wonder
Pounding on the door to make the next score

Anything for a hit, any sin to pay for it
For that next bowl, he'd sell his soul

Spiral to destruction, it's too late to break the spell
He wants the ride to stop on the freight train straight to hell
Without the truth he'll never find in a dungeon of his lies
His cause of death... high speed on burnt ice

Always looking at the ground, a broken, beaten man
Memories of his family are calling after him
He can hardly thing, hardly walk
Phone keeps ringing, he can't talk
With just one hit the pain would go away
But he's dead if he does

Shadow people follow him everywhere he goes
Looking over his shoulder, the paranoia grows


(Megadeth - Burnt Ice)
Sugestão: escutar no volume máximo, acima de 100 decibéis, batendo muito a cabeça no volante do carro enquanto dirige por uma auto-estrada. Ah, sem esquecer de delirar junto com os todos os solos de guitarra da música, no ritmo da bateria monstruosa.

Terça-feira, Junho 26, 2007

Os anticristos também amam

Colaboração de Danilo A. M.

Desde que surgiu para o grande público em 1996 com o definitivo Antichrist Superstar, Marilyn Manson foi um sujeito cercado de várias controvérsias. Marqueteiro ou performático? Gênio ou enganação? Criativo ou apenas aproveitador? Com o novo lançamento Eat Me, Drink Me, Brian Warner (o verdadeiro nome do artista) deve ser alvo de mais controvérsias ainda. Afetado pelo fim do seu relacionamento com a stripper Dita Von Teese, Manson compôs seu álbum mais emocional e melódico. Se antes as letras enfiavam o dedo nas feridas da sociedade, agora elas são mais pessoais e, por que não, românticas. Se antes os furiosos riffs de guitarra se misturavam a pesados ritmos eletrônicos, agora tudo soa mais orgânico e rock'n'roll. Este é um álbum voltado para melodias simples de guitarra, para o velho modo "vocal, guitarra, baixo e bateria" de se fazer rock. Até a voz de Marilyn soa mais melódica do que em outros tempos, como se ele tivesse se tornado um "crooner dark".
Devemos lembrar que não é a primeira vez que a banda dá uma guinada assim. Logo depois do virulento Antichrist Superstar, a banda lançou o leve Mechanical Animals, onde os sintetizadores dominaram e a banda passou de anticristos para algo como travestis revoltados (!!!).
Eat Me... abre com a trágica If I Was Your Vampire. É impossivel ouvir a música sem perceber uma certa agonia, como se a banda quisesse transmitir todo o sofrimento por que seu líder passou com o término de seu namoro. O primeiro single é Heart-shapped Glasses, música totalmente desprovida de peso, mas que, ainda assim, possui todas as características de algo criado por Manson. Destaque para o polêmico clipe desta faixa, no qual dizem que Marilyn realmente estava fazendo sexo com sua nova namorada Rachel Evan-Wood, de apenas 19 anos.
O álbum possui grandes candidatos a hits, como: You And Me And The Devil Makes 3, The Red Carpet Grave, e principalmente They Said That Hell's Not Hot, com seu ótimo riff e que explode em um excelente refrão. A faixa-título fecha o álbum em grande estilo, com seu clima sombrio e arrastado.
Eat Me, Drink Me é mais um grande trabalho da banda, mostrando um novo lado seu, que pode afastar fãs mais radicais, entretanto merece ser ouvido com toda a atenção. Afinal, não é todo dia que ouvimos um anticristo sofrendo por amor.

Segunda-feira, Junho 25, 2007

Dignidade se começa pelos pés - hein?

Todo dia é dia de se surpreender. Ontem vi uma reportagem sobre um trabalhador rural no Paraná que teve sua audiência no tribunal (não lembro qual assunto seria tratado) cancelada e remarcada pelo juiz por um fato absurdamente insólito: o trabalhador, de parcos recursos, havia comparecido à audiência de chinelo de dedo.

Indagado sobre o motivo do cancelamento da audiência por um motivo tão incomum, o juiz (eu devia ter gravado o nome do sujeito, devia mesmo) respondeu que, diante da justiça, toda e qualquer pessoa deve se apresentar "dignamente", em trajes adequados para a ocasião. Ora, vejamos: a própria Justiça, com sua balança e seus olhos vendados, é sempre representada com os pés descalços, quando muito, usando um tipo antigo de sandália.

Suponho então que este mesmo juiz, provavelmente respeitador dos costumes que prega, deve manter a própria Justiça de fora da justiça quando aplica as sentenças que lhe são cabíveis no cumprimento do seu dever. Ou isso seria um exagero de minha parte?

O exagero, na verdade, está na estupidez em não saber, ou não querer distinguir as condições sociais e financeiras entre as pessoas. Outro magistrado foi abordado sobre a decisão do colega juiz, e foi taxativo: onde está a dignidade de uma pessoa? Nos pés? Num chinelo de dedo ou num sapato engraxado de couro legítimo? Na pobre residência daquele trabalhador rural não há uma sapateira onde guardar os poucos calçados da família, e estes poucos calçados são depositados dentro do forno de um fogão quebrado num canto da casa. A dignidade deste trabalhador se encontra encerrada no forno, é isso? É isso? Se eu for tão pobre que não possua condições de me vestir "adequadamente" perante a Justiça, a mesma Justiça que anda descalça e não distingue credos, raças, condições sociais ou vestimentas pelo fato de ser cega, então não mereço adentrar um tribunal? É isso mesmo?

Quanto ao trabalhador, o que lhe resta é esperar mais alguns meses para ser ouvido, já que a decisão do juiz é irrevogável. E que trate de comprar ou de emprestar um par de sapatos decentes, por obséquio. Chinelo de dedo nem pensar. Se todo mundo começar a usar chinelos de dedo nos tribunais, o que será desse mundo? Onde estão os bons costumes?

E o respeito pelo trabalhador, humilhado justamente por ser trabalhador? Ele que fez questão de usar a sua melhor calça e sua melhor camisa, ambas já meio gastas de alguns anos? Como ensinar justiça aos filhos desse modo?

Ainda bem que o juiz não o obrigou a usar gravata: o pobre homem sairia do tribunal direto para a cadeia, sem direito a habeas corpus ou telefonemas. Ufa, foi uma sorte danada.

Terça-feira, Junho 19, 2007

Mundo, amor e território

Idéia de Danilo A. M. - demorou, mas saiu.

Os passos acompanham Wonderful World nos fones de ouvido. Vira a esquina e encontra uma mãe, um bebê no colo e duas crianças procurando restos no lixo largado sobre a calçada. O cheiro fétido invade as narinas enquanto Mr. Cole se rasga de emoção ao pensar nas maravilhas do mundo. A mãe não levanta os olhos, o bebê tenta acostumar-se à maravilha enquanto chora, as crianças já não sabem que palavra é essa. Segue.

Entram os Beatles com sua melodia simples, afirmando que tudo de que você necessita é amor, enquanto na esquina, debaixo do semáforo, há um engavetamento de carros, todos os motoristas saindo esbaforidos e tensos, discussões e dedos em riste, caras feias, quem teve a culpa?, um congestionamento se formando logo atrás, mais tensão, buzinas em tons diversos, alguém pedindo calma, outro querendo partir para a ignorância. All you need is love, love, love is all you need, é o que ecoa nos tímpanos ao atravessar a esquina, ao mesmo tempo em que a primeira mão é levantada e o primeiro tapa é desferido em cheio no primeiro rosto, e a confusão engrossa, e os curiosos batem palmas, assobiam, fazem torcida, como de praxe.

Desliga os fones e adentra o bar. Risadas, álcool, maquiagens, gestos. Recinto em meia luz. Pega de um copo e serve-se de uma garrafa no balcão. Ao lado, mesas ocupadas, jovens fingindo algo que não são. Sepultura ecoa das caixas de som, gritando por território. Observa um sujeito cercando uma garota de sombras exageradas nos olhos, penduricalhos excessivos pelo corpo. War for territory, war for territory, bateria segurando a fúria da guitarra. Acha graça, bebe mais um gole. Esquece de si e se perde no meio da febre. Alguém se aproxima e pede fogo, uma menina tão nova. Ela não sorri, nem está ali, é o cigarro que a sustenta entre os dedos. Acende sua brasa, então ela parece acordar de algum lugar distante, mostra os dentes num esgar dos lábios e volta para uma dança que é um chacoalhar de ossos no meio da noite, no meio das almas perdidas que se reconhecem. Vertigem da guerra da vida; o território é demarcado em cada par de olhos bêbados presente. A grande piada.

Sábado, Junho 16, 2007

Divagações e blusas brancas

As coisas não são apenas coisas, assim como eu não sou somente eu.
(Espera um pouco: isso está certo? Vamos começar de novo.)
As coisas não são apenas coisas, pois nada é realmente o que parece ser.
(Hum, ainda não está bom.)
As coisas não são apenas coisas. Se assim fosse, o mundo estagnaria, a vida não daria voltas, os pássaros não saberiam voar, a minha vizinha não surgiria cada vez mais bonita e sensual naquela blusa branca, debruçada em sua janela.
(Não, nada disso, nada disso. Espera um pouco, vejamos. Ah, sim.)
As coisas não são apenas coisas. O espelho da vida reflete as máculas do mundo, e é nessas máculas que mudamos, que tentamos, que amamos e odiamos. As coisas não são nunca o que parecem ser pois, se assim fosse, o planeta estagnaria, a vida não daria voltas, eu não estaria aqui buscando entender a mim mesmo em meio às minhas tralhas, minha vizinha não estaria cada vez mais gostosa naquela blusa branca, a evolução não teria lugar no universo, e eu não estaria pensando em parar de fumar pela milésima ducentésima octagésima terceira vez. As coisas não são apenas coisas, como este chiclete em minha boca é mais do que um chiclete. Tudo é de uma obviedade espantosa, e talvez seja pelo espanto que nossa consciência prefere esquecer. A lição não aprendida e herdada.
(Definitivamente, é melhor esquecer. Minha vizinha debruçada na janela me traz mais compreensão do que todos os livros do mundo. E se um escritor não compreende a si próprio, é melhor se concentrar em blusas brancas.)

Quarta-feira, Junho 13, 2007

Olhar sobre Nenhum Olhar

Um pastor de ovelhas. Um gigante. Uma voz presa dentro de um baú. Irmãos gêmeos siameses ligados pelo dedo mindinho. O demônio que bebe vinho junto aos homens numa venda e está sempre a sorrir, e ao mesmo tempo celebra casamentos. Uma prostituta cega de nascença. Um homem sem o olho direito, a perna direita e o braço direito. Tudo isso vindo da cabeça de um escritor com piercing na sobrancelha e que até já fez projeto musical/literário (Antídoto) com uma banda de heavy metal, a Moonspell.

O livro: Nenhum Olhar, publicado em 2000. O autor: José Luís Peixoto, da nova safra de escritores portugueses. Sim, no Brasil ainda é um nome desconhecido, mas imagine você que este sujeito, atualmente com pouco mais de trinta anos, ganhou o Prêmio Saramago de 2001, um incentivo a jovens escritores de língua portuguesa, pelas mãos do próprio José Saramago, o laureado do Nobel de Literatura de 1998, devido a este livro de que falo. E isso quando ele tinha apenas vinte e seis.

Em princípio, o enredo parece se confundir logo nas primeiras páginas, como se estivéssemos no meio de uma roda de conversa onde ninguém se entende e todos querem falar no mesmo instante. Depois, tem-se a impressão de que a estória entra nos eixos e segue constante pelos trilhos da imaginação poética, fantástica e bastante real de Peixoto. Não há um narrador, ao contrário: quase todos os personagens têm o direito de mostrar o que vêem, o que sentem, o que pensam. Há também o narrador em terceira pessoa, porém fica meio encoberto pelos tantos outros.

A obra é uma sucessão de cotidianos simples, pessoas simples, mas repleta de sentimentos e pensamentos profundos, com grande carga de poesia. Como se todo o básico e o rústico do ser humano se condensasse numa pequena região do Alentejo, onde José Luís Peixoto nasceu. Como se todas as pequenas felicidades e todas as imensas tristezas do mundo pudessem ser resumidas na paisagem campestre, na venda do judas, na casa do doutor mateus, entre as ovelhas de José, no olhar sem expressão da mulher de José, na serraria do mestre Rafael, no quarto sem janelas da prostituta cega, nas esculturas culinárias da cozinheira, na lealdade da cadela que acompanha o pastor, nas tentações do demônio.

Só para se ter uma idéia do que estou falando, aqui vão os primeiros parágrafos:

Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu. Um açude sem peixes, sem fundo, este céu. Nuvens, veios ténues. E o ar a arder por dentro, chamas quentes e abafadas na pele, invisíveis. Suspenso, como um homem cansado, ar.

Há-de ser um instante em que não se veja um pardal, em que não se ouça senão o silêncio que fazem todas as coisas a observar-nos. Chegará. Hei-de distingui-lo no horizonte. Tão bem quanto sei isto agora, sabia-o ontem quando entrei na venda do judas e pedi o primeiro copo e pedi o segundo e pedi o terceiro. Mais, sabia que por toda a planície se calarão as cigarras e os grilos. De encontro ao céu, as oliveiras e os sobreiros hão-de parar os ramos mais finos; num momento, hão-de tornar-se pedra.


Para conhecer:

Título: Nenhum Olhar
Autor: José Luís Peixoto
Editora: Agir
Número de páginas: 192

Quarta-feira, Junho 06, 2007

Mundo de pulgas

Por enquanto nada de novo no mundo das pulgas: elas pulam, pulam, confabulam, buscam conquistar espaço em meio a pêlos e sangue, mas a vida é cruel. Não, não é cruel, é justa dentro da medida do possível para cada um.
Eu reclamo, tu reclamas, ele reclama, ela tem um ataque histérico, nós entramos em pânico, vós iniciais uma guerra civil, eles caem na porrada.
E assim segue o mundo, o mundo de todos os mundos, nós aqui a coçar, a meditar e a criar neuroses em todas as nossas esferas. Porque tudo converge para o tédio, e é preciso um escape. Nem que seja em meio a pêlos e sangue.
Coça mais embaixo, faz favor.

Terça-feira, Maio 22, 2007

Álvaro de Campos (Overdose de)

O BINÔMIO DE NEWTON

O Binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.

óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó
(O vento lá fora.)


TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


NA CASA DEFRONTE

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!

Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não sou eu.

As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.

As vozes, que sobem do interior do doméstico,
Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.

Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta —
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.

Que grande felicidade não ser eu!

Mas os outros não sentirão assim também?
Quais outros? Não há outros.
O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para as crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.
Os outros nunca sentem.

Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.

Nada! Não sei...
Um nada que dói...